terça-feira, 12 de abril de 2011

Alforria


“Se tudo tem que terminar assim, que pelo menos seja até o fim pra gente não ter nunca mais que terminar” canta Herbert Vianna em Caleidoscópio. Sempre pensei no significado dessa frase que me parece descrever uma relação conturbada, mal resolvida, já que pelo narrador esse ‘término’ aconteceu algumas vezes e agora ele quer terminar de vez pra não ter nunca mais que terminar. É incrível como essa situação de indefinição é mais comum do que a gente pensa. E aqui não estou falando de um triângulo amoroso em que uma das pontas é o amante (o tão malfadado vício de uma relação monogâmica). Nessa relação extra-conjugal, a função do amante está definida e ele sabe que ficará sempre em segundo plano. O problema é quando numa relação a dois tudo é somente sexo e amizade, como cantou Bethânia em Tá Combinado. Será que as pessoas conseguem viver essa relação sem neuras, sem terem estabelecido as suas significâncias uns para o outros? Até quando conseguimos suportar essa liberdade toda?

É uma equação complicada que vem tentando ser resolvida já há bastante tempo na MPB, mais precisamente desde 1917 quando Zequinha de Abreu compôs Tico-Tico no Fubá. Essa relação libertária parece encontrar uma representação legítima em três músicas de Daniela Mercury. A primeira é Nobre Vagabundo em que ela respira o amor, aspirando liberdade. A segunda, Aeromoça, tem um dos versos mais lindos da MPB que diz o seguinte: ‘Posso até sentir ciúmes não vou mentir/Posso amá-lo tantas horas quanto resistir/E até mudar a cor do quarto se quiser/Mas eu tenho que voar/Mas eu tenho que voar, amor.’ E por fim em Amor de Ninguém, Daniela rasga o verbo: ‘Meu bem, não chore/O nosso amor não acabou/Só porque alguém olhou pra mim/E me dedicou tudo de bom/Só porque alguém me desejou/E parece que eu correspondi/Só porque alguém me quis feliz/Só porque alguém me conquistou.’

Ainda tentando solucionar essa equação complicadíssima, o segredo das relações fugazes talvez esteja nesse verso de Amor, meu grande amor da Ângela Rô Rô: enquanto me tiver que eu seja o último e o primeiro. Mas a coisa parece degringolar quando você não é essencial nem naquele raro encontro descompromissado de quarta-feira à tarde. E o telefone toca. E qualquer que seja o assunto do telefone, ele vai ser mais importante que você. Nem mesmo mentiras sinceras conseguirão empunhar a espada do amor livre.

Mas então por que essas relações se arrastam? Por que essas pessoas que pregam tanto pela liberdade parecem estar tão presas num relacionamento que se dissolve pelo ralo? ‘Tá amarrado em nome de Jesus!’ ouvi alguém gritar.

Agora sim, acho que estamos chegando lá, à solução dessa equação que parece nem ser tão complicada assim. Tudo se resume a uma palavra: vaidade. Cantada por Cazuza em O Nosso Amor a Gente Inventa quando diz que ‘o seu amor é uma mentira que a minha vaidade quer’. E cantada por Caetano em Eclipse Oculto quando diz: ‘Não me queixo/Eu não soube te amar/Mas não deixo de querer conquistar/Uma coisa qualquer em você/O que será?’

O próprio Caetano parece mudar de lado. Do vaidoso que tem o seu refém carente vira a vítima. Vítima alforriada, diga-se de passagem. Porque não pega bem pruma pessoa que tem um ‘coração galinha de leão que não quer mais amarrar frustração’ fazer a coitada. Então Caetano chuta o balde, canta pra subir, roda a baiana, o caboclo e se liberta definitivamente do algoz que tentou restringir sua visão enquanto estavam juntos. E, agora sim, chegamos na música de hoje. Ufa! Antes um parágrafo.

Para falar sobre o artista Caetano Veloso teria que escrever pelo menos uns cinco posts, já que, na minha humilde opinião, ele é o maior e mais genial artista brasileiro que já passou por esse planeta. Não preciso dizer que acho-o também o melhor compositor brasileiro. Que me desculpem todos os fãs de Chico Buarque, nessa polêmica de qual é maior, mas fico com Caetano porque o acho mais universal, mais moderno, mais transgressor. Pra mim, Caetano sempre será a representação do tempo em que vive. Antenado, arrojado, brilhante.

Voltando à música de hoje, seu nome é Não Enche e ela foi gravada no disco Livro de 1997. Tenho a impressão de que ela é quase um vômito. Um espinho entalado na garganta que sai feito um jorro, quando ele desfia os nomes tão delicados que seguem nessa lista: quadrada, demente, harpia, aranha, perua, piranha, sanguessuga, pirata, malandra, vagaba, vampira, tarada, mesquinha, vadia.

Dessa lista destacaria dois adjetivos que dão o tom de castração que existia nessa relação: sanguessuga e vampira. É Caetano vociferando que não quer mais que lhe arranquem o sangue, que lhe apaguem o brilho.

Continuando na letra, Caetano nos brinda com o seguinte verso: Me encara de frente/É que você nunca quis ver/Não vai querer, nem vai ver/Meu lado, meu jeito/O que eu herdei de minha gente/Eu nunca posso perder.

Nesse trecho ele deixa claro o quanto era invisível para outro, que estava ao seu lado, mas não o enxergava, não aceitava o seu jeito, o que ele herdou de sua gente. Acho essa frase até meio psicanalítica se pararmos pra pensar que as relações afetivas que vivemos são repetições das relações que foram vividas pelos nossos pais. Quantas vezes você não se pegou falando depois de uma briga com o namorado: ‘nossa eu me comportei do mesmo jeito que a minha mãe fazia com o meu pai’. Pois é, terapia existe pra isso. Mas a gente nunca vai perder totalmente o que herdou de nossa gente.

E continuando nos deparamos com o verso: Está no meu querer poder fazer você desabar do salto/Nem tente manter as coisas como estão/Porque não dá, não vai dá.

É o execrado se rebelando, dizendo pra tomar cuidado que uma revolução vem aí, que a única coisa constante da vida é a mudança. E se você acha que eu vou abaixar a cabeça a vida inteira, presta atenção no meu poder porque a presença de um algoz só é justificada quando existe uma vítima, de preferência passiva. Mas não é bem assim. Deixa vir o maremoto que água parada dá dengue.

Me deixa cantar. Me deixa gozar. Me deixa viver. Porque eu vou viver sem você. Na luz desse dia D.

Aqui Caetano escolhe uma data significativa que remete aos desembarques da Normandia pelos aliados na segunda guerra mundial, mas que bem podia ser 13 de maio de 1888 ou 7 de setembro de 1822. Independência do Brasil ou Abolição dos Escravos. Datas que marcaram a libertação de uma nação ou de um povo. O Dia D, deixava claro os rumos daquela guerra, que ela estava chegando ao fim e que, a partir dali, toda uma nova configuração de mundo viria a ser formada.

Esse grito de liberdade de Caetano é expressado de maneira arrebatadora quando ele diz: Eu vou viver dez/Eu vou viver cem/Eu vou vou viver mil/Eu vou viver sem você.

E aqui ele põe um ponto final nessa relação que nunca teve nome porque trancafiou dentro de um quarto escuro a liberdade que julgava ser tão clara.

Pra ficar melhor, só falta agora chegar o dia em que ele irá cantar os versos antológicos de Jamelão:

Eu agora sou feliz/Eu agora vivo em paz/Me abandona, por favor/Porque eu tenho um novo amor e eu não te quero mais.


Não Enche

Composição: Caetano Veloso

Me larga, não enche
Você não entende nada
E eu não vou te fazer entender...

Me encara, de frente
É que você nunca quis ver
Não vai querer, nem vai ver
Meu lado, meu jeito
O que eu herdei de minha gente
Eu nunca posso perder
Me larga, não enche
Me deixa viver, me deixa viver
Me deixa viver, me deixa viver...

Cuidado, oxente!
Está no meu querer
Poder fazer você desabar
Do salto, nem tente
Manter as coisas como estão
Porque não dá, não vai dá...

Quadrada! Demente!
A melodia do meu samba
Põe você no lugar
Me larga, não enche
Me deixa cantar, me deixa cantar
Me deixa cantar, me deixa cantar...

Eu vou
Clarificar
A minha voz
Gritando
Nada, mais de nós!
Mando meu bando anunciar
Vou me livrar de você...

Harpia! Aranha!
Sabedoria de rapina
E de enredar, de enredar
Perua! Piranha!
Minha energia é que
Mantém você suspensa no ar
Prá rua! se manda!
Sai do meu sangue
Sanguessuga
Que só sabe sugar
Pirata! Malandra!
Me deixa gozar, me deixa gozar
Me deixa gozar, me deixa gozar...

Vagaba! Vampira!
O velho esquema desmorona
Desta vez prá valer
Tarada! Mesquinha!
Pensa que é a dona
E eu lhe pergunto
Quem lhe deu tanto axé?
À-toa! Vadia!
Começa uma outra história
Aqui na luz deste dia "D"
Na boa, na minha
Eu vou viver dez
Eu vou viver cem
Eu vou vou viver mil
Eu vou viver sem você...(2x)

Eu vou viver sem você
Na luz desse dia "D"
Eu vou viver sem você...



Um comentário:

  1. Sugestão: A Tonga da Mironga do Kabulete!

    ResponderExcluir